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Nascido na comunidade da Linha Auxiliadora, Paim Filho, Seu Felitio Bessegatto escolheu o município de Machadinho para morar, trabalhar e criar seus filhos, sempre ao lado da esposa e companheira Eustália. O trabalho foi quase sempre voltado à atividade agrícola, com exceção do período em que trabalhou com um bar na comunidade das Três Pontes.
De acordo com Felitio, o principal obstáculo encontrado na atividade foi a venda fiado. “Quando eu casei nós colocamos um bar nas Três Pontes, eu e um cunhado meu. Naquele tempo tinha muita serraria e daí nós colocamos o bar. Nós vendíamos, mas era muito fiado, daí os peões perdiam o emprego na serraria e nós com as contas ali no caderno”, conta. “Quase nos quebramos naquela época. Foi um atraso nas nossas vidas”, relembra.
A instabilidade dos funcionários das serrarias era a principal causa das vendas do bar que depois não eram pagas. “Os donos da serraria contratavam lá dez, vinte peões, e às vezes não trabalhavam direito, mandavam embora. Eles vinham comprar fiado lá e não recebíamos mais. Eu tenho até o caderno guardado com o nome daqueles que ficaram devendo, não recebi um pila”, lamenta Felitio.
Não demorou muito para perceber que o bar não seria uma atividade viável para buscar o desenvolvimento, a venda foi inevitável. Depois disso o trabalho passou a acontecer com a agropecuária. “Vendi o bar e comecei trabalhar na agricultura, foi aonde acertamos. Fomos comprando os pedacinhos de terra e quando vimos tinha sessenta hectares de terra”, afirma Felitio. “O ramo que eu comecei fazer dinheiro mesmo foi com engorda de porcos. Comprava porco magro e engordava”, comenta. Os principais compradores de porco gordo eram de Paim Filho, que transportavam os animais para serem abatidos no estado de São Paulo.
No começo do trabalho com a agropecuária a ajuda do sogro de Felitio foi fundamental, já que vendeu áreas de terra ao casal para que pagassem quando conseguissem juntar dinheiro. “O meu sogro me vendeu para eu ir pagando conforme podia, aos pedaços”, revela Felitio.
No cultivo da terra, as principais espécies plantadas eram: soja, milho e trigo. “Eu colhia muito milho. Naquela época não tinha trator – depois eu comprei um trator. Eu plantava e daí ia dobrando, colhendo como podia, colocando no paiol”, conta Felitio. “Depois ia debulhando conforme precisava para engordar porco”, acrescenta.
Já ao falar sobre o manejo dos suínos da criação, Felitio comenta que a alimentação era baseada em milho, abóbora, mandioca, farinha de carne e sal mineral. “Engordava que ‘Deus o livre’”, diz. Os porcos para engorda eram comprados dos parentes de sua esposa no município de Barracão e permaneciam alojados entre 60 e 90 dias.
Ainda sobre particularidades da criação de suínos, Felitio relembra que os frigoríficos valorizavam a gordura nos animais, ao contrário do que acontece nos dias atuais em que a carne magra é fator determinante para a valorização do produto. “Naquele tempo eles queriam porco de banha, não era porco de carne. Eles queriam banha. Se o porco era enxuto descontavam porque queriam banha. Hoje eles querem é a carne mesmo”, esclarece.
Ainda antes das atividades profissionais citadas, uma experiência marcou a vida do machadinhense – servir ao Exército Brasileiro. O que mais marcou, de acordo com seu relato, foi o valor que se dava aos cavalos que formavam a cavalaria da instituição. “Era coisa de louco, os soldados eram menos que um cavalo. Se você estivesse cuidando de um cavalo, ele morresse e não soubesse do que, ia para a cadeia. Era danado naquele tempo”, explica. Como lembrança do período, Felítio guarda com zelo e cuidado a foto de um desses cavalos.
A idade de quase 87 anos de Seu Felitio e de 84 anos de sua esposa não são empecilho para que a lembrança, ainda do tempo em que se conheceram, permaneça viva na memória do casal. “Tinha uma festinha lá em São Miguel e eu não conhecia Machadinho. Um amigo meu convidou para ir na festa e no final tinha duas moças caminhando na estrada, aí eu combinei com ele de irmos lá com elas. Só que tinha uma feia (amiga da esposa) e quando chegamos perto passei na frente dele e fui conversar com ela (esposa)”, relembra descontraído Felitio.
Muitos frutos foram gerados pela união iniciada há mais de 60 anos: são 08 filhos, 11 netos e 02 bisnetos. “Moram todos meio longe, mas no dia do nosso aniversário estão todos aí e no fim do ano é tudo lá no Alaor”, explica Felitio sobre os momentos em que a família se reúne, trazendo muita alegria plena ao casal.
Como um dos melhores momentos vividos pelo casal, Felítio cita a comemoração das Bodas de Ouro. “No tempo que nós fizemos as Bodas de Ouro nós estávamos todos perto. Depois a ‘piazada’ começou se espalhar e ficamos só eu e minha esposa”, revela.
Outro ponto ressaltado pelo casal é a criação dos filhos que hoje têm um bom relacionamento com a sociedade. “Sempre fomos bem, os meus filhos se dão bem uns com os outros e todos me querem bem. Estão todos bem colocados também”, destaca Felitio.
Por outro lado, também associada a criação dos filhos, uma dificuldade traz lembranças pelo lado negativo. “Uma grande dificuldade, um tempo de sacrifício, foi quando nós tivemos as crianças que começaram a estudar. Nós morávamos lá nas Três Pontes e eles vinham estudar aqui (Bela Vista), época de chuva e frio e tinha que vim a pé, sete quilômetros caminhando, mas nunca desistiram”, ressalta Dona Eustália. “Hoje vão pegar na porta da casa com o carro e às vezes nem vão estudar”, acrescenta Felitio.
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