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Na edição de número 226 do Jornal Folha da Club tivemos a grata satisfação de conhecer e transmitir aos nossos leitores, a história de Dona Tereza Tidre Tessaro, que com muita luta e perseverança, superou os obstáculos impostos pela vida, criou seus filhos – os biológicos e os de coração -, e ainda dedicou parte do seu tempo a ajudar dar a luz a dezenas de outras crianças atuando como parteira.
Ainda criança Tereza teve de superar o primeiro dos grandes golpes que a vida lhe impôs, a perda do pai quando tinha apenas sete anos de idade. Poucos anos depois foi a perda da mãe que a golpeou, dessa vez quando tinha doze anos de idade.
Depois da perda dos pais, Tereza foi morar com a irmã mais velha, que casou-se vinte dias depois da morte da mãe. “Já estava tudo pronto para a minha irmã mais velha casar quando a mãe faleceu e eu fui morar com ela. Os outros irmãos que eram solteiros foram morar com o vô”, relata.
Foram várias as mudanças durante o tempo em que não assumiu o controle da própria vida, momentos que deixam lembranças de dificuldade a Tereza. “Foi um tempo muito ruim, muito sofrido. A gente ficava um tempo na casa de um tio, um tempo na casa de outro; no meu avô tinha as minhas tias que também eram bravas”, relembra.
Quando o irmão mais velho também casou, assim como a irmã, Tereza e um dos irmãos mais novos reclamaram sobre a dificuldade em morar com o avô e a decisão foi de fugir para morar novamente com a irmã mais velha. “Nós reclamamos que eram ruins para nós, então fugimos de lá, eu e meu irmão. Deixamos uma irmã lá comm o meu avô”, diz.
Um dos momentos que mais marcaram sua vida foi quando teve a oportunidade de sair da casa da irmã e do cunhado para trabalhar com as freiras. “Eu tinha vinte e dois anos e queria vim trabalhar com as freiras. Tinha casado uma irmã minha e eram uns italianos meio ‘pão duro’, nós trabalhávamos bastante e não ganhávamos nada, então eu pensei: ‘já que aqui na minha irmã eu não ganho nada vou me virar’”, conta.
Na época Tereza também tinha o desejo de estudar para ser freira, porém a forma de seleção das candidatas não permitiu a realização desse sonho. “Eu queria estudar para freira também, mas não deu porque na época era escolhidinho. Como a mãe tinha morrido e o pai tinha sido matado não me aceitaram. Para estudar para freira tinham que ser só pessoas escolhidas”, relata.
Quando deu a notícia para a família sobre a decisão de trabalhar com as freiras no hospital, outro desafio se apresentou, já que o cunhado dizia não poder deixá-la sair da casa antes de se casar. “Ele (cunhado) disse: ‘não, você não pode sair daqui porque tem que sair quando casar’. Eu disse: ‘não, pode dizer para as freiras que eu vou trabalhar com elas’”, detalha Tereza. Mesmo depois de ter firmado posição frente ao cunhado, Tereza conta que ele conversou com o escrivão para confirmar se ela poderia sair da residência. “Antes de ir dar o recado para as freiras foi falar com o escrivão. E o escrivão disse pra ele que eu já podia fazer o que quisesse porque já tinha vinte e dois anos”, comenta.
A caminhada de prestação de serviços na saúde no hospital do município iniciou na época e perdurou por quarenta anos, com um intervalo durante o tempo em que morou no Distrito Bela Vista, para onde mudou-se depois de ter casado com Severino Tessaro. Por lá morou pelo período aproximado de dez anos.
Mesmo sem trabalhar no hospital, em Bela Vista a missão continuou sendo ligada à saúde e a vida das pessoas. A tarefa era auxiliar quem precisasse no momento do parto – Dona Tereza foi parteira durante o período. Um dos casos que mais marcam a memória da machadinhense foi de uma criança que nasceu na Linha São Miguel, da qual Tereza não conseguiu lembrar o nome, depois de um chamado em dia de muita chuva. “Eu cheguei lá e disse: ‘meu Deus, e agora, com esse tempo o que eu faço? O meu Deus sempre esteve junto. Ajudei nascer, nasceu, batizei na hora que nasceu e graças a Deus está aí: casado, tem filhos”, relata.
De acordo com Tereza, Deus sempre esteve e está ao seu lado para superar os momentos mais difíceis.
Com Severino, Tereza teve duas filhas. Não teve muito tempo para conviver com o falecido marido, já que foi morto quatro anos depois do casamento em um evento realizado na comunidade da Bela Vista.
A perda do marido foi um dos maiores golpes sofridos, segundo a avaliação da própria Tereza. “O momento que mais me marcou foi a perda do meu marido Severino. Teve uma briga com o meu cunhado, o Severino chegou para separar e levou uma facada. Foi muito forte”, conta. De acordo com as filhas Luciana e Josane, a mãe viu o marido perder a vida em seus braços, depois de ter recebido o golpe de faca.
Depois de ter ficado viúva de Severino, Tereza permaneceu sem companheiro por aproximadamente 11 anos, até que casou-se novamente com Libório dos Santos, com quem teve a filha mais nova, Luciana. O casamento durou seis anos, acabando pelo divórcio.
Na volta de Bela Vista, novamente morando na cidade de Machadinho, Tereza retomou o trabalho no Hospital São Francisco. A experiência deixou lembranças muito marcantes, uma delas foi quando acolheu em sua própria casa uma paciente que correria risco de vida caso se deslocasse até a residência no interior do município. Tão marcante foi a experiência que até hoje Dona Tereza visita e é visitada pela família da antiga paciente. De acordo com relatos da filha Luciana, na festa de 80 anos da mãe esta família esteve entre os primeiros a serem convidados, assim como foi convidado uma das crianças a quem sua mãe ajudou trazer ao mundo em um parto difícil, no qual auxiliou o Doutor Nilo, médico do município há várias décadas.
As dificuldades foram grandes ao longo da vida, porém o reconhecimento pelos serviços prestados representa a recompensa que faz tudo ter valido a pena. Pelas ruas onde anda, o carinho e respeito de quem teve o privilégio de receber os cuidado de Dona Tereza predomina na relação com as pessoas.
Hoje Tereza reside com a filha Luciana, onde recebe o carinho e os cuidados do netinho diariamente, assim como também tem a alegria de reunir a família. Todos os sábados à tarde faz questão de encontrar as filhas que residem em Machadinho para jogar conversa fora e desfrutar da convivência das pessoas queridas.
Quando fala em família, Tereza considera como filhos, além das três biológicas, também os enteados, os 12 filhos que Severino tinha antes de casar-se com ela. Esses enteados já lhe proporcionaram muitos netos e bisnetos, que hoje se somam no coração de Tereza aos seis netos e uma bisneta biológica.
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