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A trajetória de Dona Anair Vieira Bossi pode ser considerada uma missão de vida. Teve apenas uma filha biológica, porém não teve a graça de poder criá-la, tendo ela falecido ainda criança. Contudo, o dom da maternidade não ficou encoberto em seu coração, já que adotou oito crianças, formando uma família cheia de amor e respeito.
Nossa entrevistada dessa semana é natural de Machadinho, nascida na Linha Pinheiro Grosso. Hoje tem 85 anos de idade. A vida inteira foi trilhada na agricultura e o trabalho com a roça sempre foi o meio de sustento da família. De acordo com Anair, seu pai tinha muitas posses na época em que era jovem, porém acabou perdendo as propriedades por não fazer bons negócios ao longo dos anos. “Meu pai era dono de todas essas terras, de lá do Morro do Tatu até no Machadinho, quase tudo era dele – da mãe dele. E ele perdeu tudo”, conta.
Conforme relato de Anair, a maioria da produção gerada na propriedade era negociada na cidade por produtos que serviriam para a subsistência da família. “Era tudo para o gasto. Alguma coisa a gente negociava com as lojas. O Demétrio Vecchi tinha o armazém ali onde tem o banco”, relembra. Os porcos eram criados soltos. Quando chegavam ao ponto de abate também eram utilizados para a alimentação da família.
Sobre as características das propriedades da família décadas atrás, a descrição de Anair demonstra a riqueza das matas que predominavam na região. “A nossa terra era tudo pinhal. Chegava de ser escuro de tanto mato de pinheiro que tinha. O meu pai dava pinheiro para todo mundo”, comenta.
A cidade ainda era praticamente inabitada, conforme Anair. “Eu ia lá e era só vaca e cavalo. Eu ‘tropicava’ nas vacas, todas deitadas. Tinha só uma casa de um dentista e uma loja do Demétrio Vecchi. Parecia tudo um sítio. E olha só como é agora”, analisa a machadinhense, encantada com a transformação pela qual passou Machadinho ao longo das décadas.
“Machadinho foi crescendo aos poucos. As pessoas foram fazendo as suas casas e foi aumentando”, relata Anair, citando a forma como era o trabalho para a construção das residências. “Faziam os ‘puxirões’, iam de surpresa. Levavam os pães no cargueiro, as pessoas que iam para trabalhar. Tinha gente que vinha até de Lagoa Vermelha”, relembra.
Uma das situações que mais dependiam de conhecimento popular na época era a cura dos mais variados problemas de saúde, já que atendimento médico era muito difícil de conseguir. Praticamente todas as doenças eram tratadas com chá. Os partos eram conduzidos pelas conhecidas parteiras, que detinham em suas mãos o desafio de trazer as crianças ao mundo. “Não tinha doutor, não tinha nada. Se as mulheres tinham que morrer, morriam”, observa. A própria mãe de Anair exercia a função de parteira, um dos ofícios mais nobres da época.
A história com o pai de sua filha biológica, seu primeiro companheiro – policial na época –, iniciou em um baile de rancho. Anair não frequentava os bailes por acaso, era ela uma das responsáveis por animar a festa. “Eu e meus irmãos íamos tocar violão nos bailes”, relata. Dos cinco irmãos, apenas dois permanecem vivos nos dias de hoje.
Uma das lembranças mais marcantes sobre os bailes é que a iluminação era feita com lampiões. Como o porte de armas era permitido, quando alguém que estava na festa queria deixar todos no escuro, disparava tiros nos lampiões. E estava garantida a farra.
Com o primeiro companheiro a relação não foi muito duradoura, já que enquanto o noivo viajava Anair foi cortejada por um morador da vizinhança, que havia ficado viúvo. “Eu fugi com ele e meu primeiro noivo ficou muito bravo, disse que queria matar o gringo que me levou”, relembra, fazendo graça com a situação.
Outra situação engraçada que aconteceu com o romance duplo foi que os dois noivos a presentearam com alianças. “A mãe ficou brava comigo. Me dizia: ‘Onde já se viu ter dois noivos’”, comenta, aos risos.
O falecimento da filha biológica não tirou a oportunidade de nossa entrevistada de ser mãe, já que seu marido quando ficou viúvo já havia tido filhos com a falecida esposa. “Eu criei um monte de filhos, mas nenhum meu. Ele (falecido marido) queria arranjar uma companheira para criar os filhos dele”, diz.
A filha biológica, Terezinha, faleceu depois de ser acometida por uma meningite fulminante. “Deu aquela meningite nela. Não tinha médico, nada. Deu uma febre nela e no outro dia já partiu a cabeça. Não tinha vacina, não tinha doutor, nada, nada”, relembra Anair, que na época da perda da filha biológica tinha apenas 15 anos de idade.
Hoje, a machadinhense mora com um de seus filhos adotivos, a nora e um neto, na Linha Tigre. Aos 85 anos a saúde ainda está preservada e a lucidez da mesma forma. Um dos gostos que mais lhe satisfazem é o cuidado com a horta onde cultiva suas hortaliças e verduras. Os três cachorros, que cuida com carinho, também são fonte de descontração.
Finalizando a entrevista, Dona Anair usa da sabedoria conquistada ao longo dos anos para deixar uma mensagem aos jovens que estão iniciando suas vidas. Duas orientações são repassadas como aconselhamento. “Não usem drogas, sejam ativos e não entrem nesse mundo. Nós temos um guri na escola e aconselhamos sempre também: que não pegue nada dos outros. Isso não pode nunca”, conclui.
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