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Do alto do mais bonito senso de cooperação e amor ao próximo, Dautina Oliveira Marques, mais conhecida como Dona Santa, analisa sua trajetória de vida com satisfação e com a sensação de dever cumprido, porém, ressaltando que gostaria de ter feito ainda mais pelas pessoas que cruzaram seu caminho e eventualmente precisaram de uma mão amiga.
“Eu não me arrependo, tinha que fazer ainda mais pelas pessoas. Eu queria fazer muito mais”, resumiu Dona Santa, ao conceder entrevista ao Jornal Folha da Club. A análise veio após ter contado sobre algumas das muitas ações que desenvolveu em favor das pessoas que estiveram à sua volta ao longo da vida.
Na própria família, houve muitas situações em que os cuidados de Dona Santa foram demandados. O final da vida de duas das irmãs e da sogra foi passado sob seus cuidados. Ainda na infância, porém, o dom de ajudar as pessoas foi colocado à prova, ao precisar cuidar do próprio pai, falecido quando tinha apenas 12 anos de idade. “O meu pai tinha uma dor muito grande no estômago, tanto é que faleceu. Pois eu cuidei dele na cama. Eu era desse tamanho (sinalizou demonstrando sua tenra idade) e tava lá cuidando dele”, contou.
O último pedido do pai foi para que Dautina – a caçula dos nove irmãos – fizesse um brodo com uma das galinhas do terreiro. “Eu coloquei a água esquentei, limpei aquela galinha – sempre com o cuidado que a mãe ensinou pra gente – arrumei e já coloquei uns pedaços cozinhar. Não tava bem cozido ainda, eu tirei uma meia xícara de brodo e uma bolacha e levei para ele lá na cama. Ele tomou aquele brodo e comeu a bolacha; era umas onze horas ele faleceu”, relembrou.
Acompanhando a mãe durante a entrevista, a filha Nelir colaborou contando um pouco das ações de Dona Santa. “Ela cuidou da sogra dela, das irmãs dela – de duas irmãs dela –, que trouxe aqui para cuidar. Elas tinham câncer e a mãe cuidou até falecerem”, disse Nelir.
Sobre o acompanhamento aos últimos meses de vida da sogra, Santa resumiu da seguinte forma: “Ela ficou dezessete meses em uma cadeira de rodas. Ela era mais alta do que eu, mas eu andava pela casa com ela, levando para o banheiro, para cá e para lá. Eu suspendia ela para não se machucar. Mas passou tudo, dando risada e se bobeando com ela, passou tudo”, comentou.
Hoje, Dona Santa reside ao lado dos filhos Néris e Nelir, na cidade de Machadinho, porém, na maioria de sua vida buscou o sustento da família na agricultura.
O início da caminhada aconteceu na Linha Anta, capela de Santo Izidoro, interior de São José do Ouro. Por lá morou ao lado dos irmãos até os 15 anos de idade, quando casou-se e passou a morar com a sogra, com quem permaneceria enquanto estivesse viva.
A história ao lado do companheiro não foi tão longa. Quando a filha mais velha tinha apenas 4 anos de idade, o marido saiu para passear na cidade de Cascavel, para onde tentou levá-la juntamente com a sogra. De acordo com o filho Néris, o convite para mudar-se ao lado do pai não foi aceito pela mãe e sua avó. Com o passar do tempo, o casal foi se distanciando e ao final, o ex-companheiro acabou formando outra família no local onde passou a residir.
Mesmo sem o marido e com os três filhos para criar, Santa afirmou que nunca deixou de trabalhar e buscar o sustento e manter a dignidade da família. “Foi sofrido demais, mas criei todos eles. Não tinha distância para eu ir trabalhar. Íamos eu e minha sogra, até três, quatro quilômetros longe de casa. Onde tinha serviço eu ia”, relembrou. As crianças eram deixadas com uma das irmãs enquanto trabalhava duro na lavoura.
Quanto ao cuidado para que os filhos tivessem o melhor que pudesse ser oferecido, Santa destacou que fez o possível para que frequentassem a escola. “Eles não estudaram mais porque não tinha lá onde nós estávamos”, disse. A mais velha das filhas saiu de casa para buscar maior escolaridade, porém os mais novos permaneceram ao lado da mãe. “Eu não deixava sair porque era ruim sair longe de mim”, comentou.
As dificuldades para manter os filhos na escola se impunham em vários aspectos. O primeiro era a distância que precisava ser percorrida pelos pequenos até alcançar a escola. “Não tinha transporte naquele tempo. Eles cruzavam uma invernada para ir no colégio, eu acho que dava uns três quilômetros. Mas nunca foram de pé no chão para o colégio”, conta orgulhosa Dona Santa. De acordo com a filha Nelir, a caminhada em direção ao colégio durava aproximadamente 40 minutos.
Outra dificuldade era conseguir o dinheiro para comprar os materiais escolares que os filhos precisariam durante o ano letivo. Conforme a própria Dautina, repassava o valor, conquistado com trabalho duro, para os professores – que compravam os materiais para a escola – e eles adquiriam também o que os filhos utilizariam. “Eu dava o dinheiro e ele (professor) me trazia de caixas de material. Eu tinha para o ano inteiro para eles, tudo o que precisava conforme a série que eles estavam: livros, cadernos, essas coisas. Não tinha nada ‘dado’, nem uma caneta”, contou.
Sobre o próprio acesso à escola, Dona Santa relatou uma história curiosa, que a impediu de frequentar uma sala de aula. Como a família era numerosa – com nove irmãos – seu pai optou por matricular os filhos em duas etapas: na primeira os cinco mais velhos cursaram as séries iniciais. Na sequência seria a vez dos mais novos, porém pelo fato de a filha do professor ter engravidado solteira foi interpretado pelo pai um mau exemplo, o que não condiria com os princípios pautados em sua família.
Para que os mais novos não ficassem analfabetos, todos os dias depois do almoço, as irmãs mais velhas retiravam a louça da mesa e repassavam lições aos que não puderam frequentar a escola. O esforço se revela recompensado na condição de Dona Santa, que mesmo sem frequentar um dia se quer uma sala de aula, hoje consegue ler qualquer texto que lhe seja oferecido.
Mesmo com todas as dificuldades impostas pela vida, a forma como criava os filhos chamava a atenção de moradores da região. “Antes de começar as aulas eu ia na loja e me prevenia de tudo quanto é tipo de roupa – de inverno e de verão. Tinha família que tinha ciúme de mim, de as minhas crianças terem tanta coisa e eles não. Mas é que eu não parava”, disse Dona Santa.
Quando disse que não parava, se referiu ao modo como aproveitava seu tempo no trabalho. Quando o tempo dava condições realizava os trabalhos que não poderiam ser feitos em momentos em que a chuva chegasse. Quando estava molhado restava ainda o que pudesse ser feito com tal condição do tempo. “Em dias de sol nós carpíamos, nós limpávamos a plantação. Quando chovia nós íamos com a foice. Eu cortava brotação e fazia ‘murchão’ para plantar as mudas de batata. Eu não perdia tempo, aproveitava todo o tempo”, relembrou. Nessa época, os filhos já acompanhavam nos serviços da lavoura.
A filha Nelir contou que a mãe também trabalhava em casas de famílias que residiam na região. Pelo trabalho era recompensada com itens utilizados para a alimentação da família. “Ela ainda trabalhava nas casas das pessoas. Ela ia na casa das pessoas, que davam banha, davam comida para ela trazer comida para casa para nós, quando não tinha”, relembrou a filha.
Os momentos difíceis impostos pelos obstáculos que precisaram ser enfrentados ao longo da vida, hoje os são recompensados pelas situações em que a família rodeia a matriarca, trazendo momentos de felicidade e amor aos seus dias. ‘É muito bom. Nos feriados estão todos aqui com nós”, comentou Dona Santa, sobre os momentos em que se vê rodeada pelos familiares.
Fazem parte dessa família, que dá tanto orgulho à matriarca de 73 anos de idade, três filhos, três netos e três bisnetos. Uma das filhas – Vacira – reside em Erechim, enquanto os outros dois – Néris e Nelir – moram em Machadinho, na mesma casa e em uma residência ao lado, respectivamente.
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