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Operação Placebo cumpriu mais de 50 mandados contra o grupo suspeito de fraudar concorrências e usar empresas de fachada. Empresário foi preso. Oncologista e advogados foram alvos de busca.
Pelo menos 39 pacientes foram vítimas do esquema de fraude em orçamentos e suspeita de falsificação de remédios para câncer no Rio Grande do Sul, de acordo com a Polícia Civil. Segundo a investigação, sete pessoas que receberam os medicamentos morreram durante o tratamento.
De acordo com a polícia, o esquema envolvia um médico oncologista, advogadose um empresário. Pacientes com câncer que se consultavam com o médico eram orientados a usar o medicamento Enhertu, que é real e pode custar até R$ 800. O oncologista orientava os pacientes a pedir na Justiça que o remédio fosse custeado pelo governo e indicava nomes de advogados (que também participavam do esquema).
Era neste momento que os advogados buscavam o empresário, também participante da fraude, que tinha empresas de fachada, todas com o mesmo dono, e faziam uma licitação falsa. Desta forma, o remédio “mais barato” era identificado e automaticamente comprado com dinheiro público, bloqueado pela Justiça para garantir o tratamento. Em nota, a Secretaria de Saúde do RS (SES) afirma que “os medicamentos foram, em grande parte, viabilizados por meio de bloqueios judiciais de valores, com compra direta por pacientes e/ou seus representantes legais, fora dos processos regulares de aquisição pública” e que, como medida preventiva, “encaminhou ofício a todas as unidades assistenciais oncológicas do RS recomendando o reforço imediato das ações de vigilância, controle e segurança relacionados aos medicamentos oncológicos“.
Farmacêutica percebeu inconsistências
A investigação começou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel, na Fronteira Oeste, desconfiou de falsificação em um medicamento para pacientes com câncer de mama. As embalagens apresentavam inconsistências e até erros de grafia na embalagem.
“As evidências reunidas apontam para uma estrutura organizada que, em tese, teria transformado a judicialização da saúde em um mecanismo de obtenção de lucro ilícito. A suspeita de comercialização de medicamentos adulterados ou falsificados torna os fatos ainda mais graves, pois ultrapassa a questão patrimonial e alcança diretamente a saúde e a vida dos pacientes“, afirma o delegado Daniel Severo, responsável pela investigação.
A polícia aponta a participação do oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, que seria responsável pelos laudos médicos utilizados nas ações judiciais. Conforme o delegado, caberia a ele a captação dos pacientes, encaminhando-os aos advogados pertencentes ao esquema.
“Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado“, explica.
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) disse que instaurará “uma sindicância para apurar a situação assim que tiver conhecimento oficial dos fatos“.
Após a publicação da reportagem, o prefeito de São Gabriel, Lucas Menezes (União Brasil), confirmou que o médico investigado seria afastado.
Operação policial
Nesta segunda-feira (29), durante a Operação Placebo, foram cumpridos 57 mandados de busca e um de prisão para investigar o grupo pela fraude em orçamentos, entrega parcial de medicamentos, uso de empresas de fachada e até fornecimento de remédios com suspeita de falsificação.
As ordens foram cumpridas em São Gabriel, Rosário do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Sapiranga, Campo Bom, Canoas, Taquara, Porto Alegre, Gravataí, Tramandaí e, ainda, em mais quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.
As medidas cautelares tiveram como alvo 15 pessoas e 14 empresas investigadas.
Preso durante a operação, o empresário de São Gabriel Lisandro Henriques Hermes é apontado, segundo a Polícia Civil, como o principal articulador do grupo.
Os investigadores afirmam que ele controlaria direta ou indiretamente empresas que participariam das concorrências apresentadas nos processos judiciais, entre as quais a Licifarma e a LH Medicamentos.
O empresário negou as acusações e disse que não tem relação com os advogados e o médico investigados. Disse, ainda, que desconhece a suspeita de falsificação de medicamentos.
Com ele, a polícia apreendeu dezenas de caixas com remédios, suplementos alimentares e cartelas de medicamentos sem identificação. Ele alegou que os produtos foram descartados por uma fábrica por controle de qualidade, mas não soube explicar por que a própria fábrica não fez o descarte.
A Polícia Civil sustenta que Lisandro utilizava sócios formais, conhecidos como “laranjas”, para ocultar o verdadeiro controle dos negócios.
Além da casa do empresário, os agentes localizaram medicamentos em cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre.
Por determinação judicial, foram bloqueados cerca de R$ 2,5 milhões em bens e valores dos investigados.
Entre os investigados estão ainda três advogados
“Esse núcleo jurídico acionava o núcleo empresarial. É uma articulação grande. O núcleo jurídico aciona o empresarial para fraudar a concorrência, ou seja, são só as farmácias ligadas a eles que ganham“, detalhou o delegado.
Além do médico, os advogados Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner foram alvos de mandados de busca e apreensão. Tanto o oncologista quanto os advogados tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça, em medida cautelar solicitada pela Polícia Civil.
Anvisa proibiu comercialização
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, ainda em fevereiro deste ano, a apreensão e proibiu a comercialização e a distribuição de um lote do medicamento oncológico Enhertu (trastuzumabe deruxtecana) após a identificação de unidades com características diferentes das do produto original.
A medida foi publicada por meio da Resolução-RE nº 641, de 18 de fevereiro de 2026, e atingiu o lote 416466. Segundo a Anvisa, a fabricante Daiichi Sankyo Brasil comunicou a existência de frascos com dimensões superiores ao padrão habitual, descascamento nas tampas e divergências na coloração e no material utilizado no fechamento das embalagens.
De acordo com a empresa, o medicamento original possui tampa amarela com acabamento plástico, enquanto as unidades suspeitas apresentavam tampa metálica pintada de amarelo, um dos indícios de falsificação.
Fonte: G1 RS
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