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Associada à apicultura e à meliponicultura, a produção de erva-mate amplia as alternativas econômicas da agricultura familiar e relaciona geração de renda, polinização e conservação da biodiversidade no Nordeste gaúcho
Em Machadinho, no Nordeste do Rio Grande do Sul, a diversificação da agricultura familiar começa dentro da própria propriedade. Entre as linhas de erva-mate, árvores nativas, eucaliptos e caixas de abelhas, produtores encontram formas de combinar atividades que ajudam a distribuir a renda e, ao mesmo tempo, manter características naturais do território.
A erva-mate ocupa lugar central nesse sistema. Além de representar uma atividade econômica tradicional na região, é a matéria-prima do chimarrão, hábito que integra a identidade cultural dos gaúchos. No município, a produção também está associada à Indicação de Procedência Erva-Mate Região de Machadinho, que reúne produtores de dez municípios do Nordeste gaúcho e estabelece critérios relacionados à origem e às características do produto.
A valorização da cultura ganhou ainda outra dimensão cultural no Estado. Em 2023, a erva-mate foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul, em uma iniciativa que relaciona a planta à identidade gaúcha, ao chimarrão e à atividade econômica de milhares de produtores.
É nesse cenário que a criação de abelhas aparece como uma atividade complementar. Na propriedade de Elio Pieri Primo, na Linha Vitória, erva-mate, eucalipto e abelhas dividem espaço. São cerca de 2,5 hectares de erva-mate, 1,5 hectare de eucalipto, aproximadamente 30 colmeias de abelhas com ferrão e outras 15 caixas destinadas a abelhas nativas sem ferrão.
Nos últimos três anos, a propriedade produziu mais de seis toneladas de mel. O filho Mauricio Pieri, o “Buiu”, também participa das atividades e destaca o sistema agroecológico com árvores nativas. “Cada atividade tem sua importância e ajuda a propriedade a se manter”, destaca o produtor.
Proteção
A combinação entre árvores e criação de abelhas também é observada em sistemas de silvicultura. Segundo Maurel Behling, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril, há experiências de integração entre apicultura e plantios de eucalipto para a produção de mel. Nesse tipo de sistema, o uso relativamente baixo de insumos agrícolas ao longo dos ciclos florestais, que podem durar de seis a sete anos ou mais, pode favorecer a atividade das abelhas. Em áreas de empresas certificadas, há ainda restrições ao uso de determinados produtos prejudiciais aos polinizadores.
Diversificação
A diversificação ocorre a partir de uma cultura que tem forte presença econômica e cultural no município. A erva-mate é uma planta nativa da Mata Atlântica e uma das principais culturas permanentes gaúchas. O estado é o segundo maior produtor nacional de folha verde, atrás apenas do Paraná, e também se destaca nas exportações brasileiras. De acordo com os dados mais recentes da Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, referentes a 2025, o Rio Grande do Sul produziu 305,9 mil toneladas de erva-mate.
No entanto, mantém a liderança nacional nas exportações. Em 2024, o estado embarcou erva-mate para 33 países, gerando US$ 79,9 milhões em receitas externas. O Uruguai foi o principal destino, respondendo por US$ 57,97 milhões, seguido por Argentina e Síria, conforme a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (Sepi-RS), na Radiografia da Agropecuária Gaúcha 2025.
Segundo o agrônomo Ilvandro Barreto de Melo, da Emater-RS/Ascar, a cadeia da erva-mate reúne produtores, indústrias e diferentes atividades econômicas. “Além de ser uma árvore sagrada, é um símbolo para os gaúchos. Temos uma produção comercial de 36 mil hectares, 14 mil produtores envolvidos na atividade e ao redor de 250 indústrias que fazem o processamento da matéria-prima”, afirma.
O agrônomo também destaca o peso do consumo e das exportações. “O consumo per capita deve chegar a dez quilos por pessoa este ano, além de cerca de 77% da exportação brasileira em 2026″, acrescenta.
Em Machadinho, parte desse processo está associada à variedade Cambona 4, material de erva-mate desenvolvido a partir de uma população local e estudado para as condições do município. A variedade é reconhecida pela produtividade e pelas características de sabor consideradas adequadas ao chimarrão.
Para o produtor Alcir da Fonseca (Barbaquá Machadinho), a organização da cadeia a partir da Indicação Geográfica (IG) trouxe mudanças na forma de conduzir a atividade. A propriedade tem 14 ha, dos quais cerca de 11 a 12 ha são ocupados pela erva-mate. A presença de árvores nativas também faz parte do sistema produtivo.
“A Indicação Geográfica mudou a organização. Hoje existe uma preocupação maior com a origem, com o uso dos produtos e com a forma como o erval é conduzido”, relata Alcir.
A experiência do produtor também se relaciona com a qualidade da erva-mate. Ele foi o vencedor da competição de erva-mate na 49ª Expointer, em setembro passado, e mantém no erval árvores nativas e áreas que favorecem a presença da fauna.
Abelhas e polinização
A presença das abelhas nos ervais vai além da produção de mel. Os insetos participam da polinização, processo fundamental para a reprodução de diversas espécies vegetais e para a formação de frutos e sementes. Estudo da Embrapa sobre a relação entre meliponíneos e erva-mate aponta a presença de diferentes insetos nas inflorescências da planta, com destaque para os himenópteros, grupo que reúne as abelhas.
“As abelhas têm uma função que vai muito além da produção de mel. Elas participam da polinização e ajudam na formação de frutos e sementes, contribuindo para a manutenção da biodiversidade”, explica Ilvandro.
No sistema de produção observado em Machadinho (RS), essa relação é favorecida pela diversidade de espécies. A erva-mate pode ser cultivada em associação com árvores nativas e outras plantas, formando um ambiente mais diversificado e oferecendo diferentes fontes de alimento para os polinizadores.
“Quando se trabalha com um sistema agroflorestal, não se pensa somente em uma cultura. A presença de diferentes espécies cria condições para que as abelhas permaneçam na propriedade e encontrem alimento em diferentes períodos”, afirma o agrônomo.
A meliponicultura, atividade com espécies nativas sem ferrão, também se encaixa nesse modelo. Jataí, Manduri e Bugia estão entre as abelhas manejadas nas propriedades participantes do projeto. Além da possibilidade de obtenção de mel e outros produtos, a criação contribui para manter populações de polinizadores no território.
“As abelhas nativas sem ferrão fazem parte da biodiversidade e podem ser manejadas de forma integrada à propriedade. A proposta é justamente aproximar produção e conservação”, destaca Elaine Cristina Basso, agrônoma e CEO da GeoApis, responsável pelas ações relacionadas aos polinizadores na nova fase do projeto “Meliponicultura: O Voo da Biodiversidade”.
A relação também é observada por Alcir da Fonseca, que mantém árvores nativas dentro do erval. Para ele, a diversidade da área produtiva favorece a presença da fauna. “É muito interessante, justamente nessa questão de não uso de certos tipos de inseticida e fungicida também nos ervais. E, fazendo um erval coberto com árvores nativas, além de trazer toda a fauna, você está preservando as abelhas. E isso é muito importante para a nossa região”.
Na propriedade de 14 hectares, Alcir mantém entre 11 e 12 ha plantados com erva-mate e conta que já chegou a ter cerca de 70 caixas de abelhas. O produtor também relaciona a presença dos polinizadores à produtividade de outras culturas.
“É uma satisfação poder ver os bichos, a natureza. Isso auxilia até na produtividade das lavouras de soja e de outras culturas. Então, as abelhas são muito importante para nós”, afirma.
A experiência também trouxe mudanças na organização da produção. Segundo Alcir, o trabalho passou a envolver o mapeamento das áreas e o acompanhamento do uso de produtos nos ervais, além de reforçar características que diferenciam a produção de Machadinho.
“A gente tem mapeamento para saber se é usado algum produto nos ervais, de onde ele vem. Então, isso mudou principalmente na questão da qualidade da erva-mate também. Por usar no mínimo 50% de Cambona 4, dá um chimarrão mais suave e, na verdade, traz um diferencial da nossa região”, explica.
O cultivo da erva-mate, por ser uma atividade perene, permite ainda uma relação de longo prazo com o ambiente. A colheita ocorre em ciclos de aproximadamente 18 meses, e o manejo pode ser associado à manutenção de cobertura do solo e de outras espécies vegetais.
“A erva-mate permite essa convivência com outras espécies. É uma planta que pode ser trabalhada em sistemas agroflorestais, mantendo árvores, cobertura do solo e uma diversidade que favorece o equilíbrio do ambiente”, observa Ilvandro.
De projeto de biodiversidade à nova etapa
A integração entre abelhas e erva-mate não é uma iniciativa recente em Machadinho. O projeto “Meliponicultura: O Voo da Biodiversidade” foi implantado em 2011 pela Associação dos Produtores de Erva-Mate de Machadinho (Apromate), em parceria com instituições locais e o Consórcio Machadinho.
A proposta era introduzir e estimular o manejo de abelhas nativas sem ferrão em áreas de erva-mate, especialmente nos sistemas agroflorestais baseados na Cambona 4. A primeira etapa do projeto foi encerrada em 2018.
A nova fase começou em maio de 2025, dentro da iniciativa “Farming for a Nature Positive Future (FNPF)”, com a GeoApis à frente das ações relacionadas aos polinizadores, além da participação da Associação de Apicultores de Machadinho (AMA) e da Secretaria Municipal de Agricultura.
“A proposta é retomar uma experiência que já existia no município, agora com novas ferramentas e parceiros, ampliando o monitoramento das áreas e a proteção dos polinizadores”, explica Selia Regina Felizari, agrônoma e vice-presidente da Apromate.
A associação articula mais de 400 agricultores familiares de Machadinho e municípios do entorno. Entre as ações estão a instalação e o manejo de caixas de abelhas nativas, a geolocalização de propriedades e meliponários e o acompanhamento das áreas para melhorar a comunicação sobre a aplicação de defensivos agrícolas.
A preocupação com o uso de produtos agrícolas é especialmente relevante para a atividade apícola, já que as abelhas são sensíveis a diversos compostos químicos. Na avaliação de Maurel Behling, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril, sistemas florestais de ciclo longo podem oferecer condições favoráveis à apicultura justamente pelo menor uso de insumos ao longo do período de cultivo.
Nesse contexto, o monitoramento das áreas e a comunicação entre os produtores ganham importância para reduzir os riscos aos polinizadores. A tecnologia GeoApis é utilizada para georreferenciar os locais de criação e facilitar a comunicação entre agricultores e criadores de abelhas, especialmente em relação ao manejo das colmeias e à aplicação de produtos agrícolas.
Também estão previstos cursos técnicos sobre manejo das colmeias, multiplicação de enxames e sanitização, além da utilização de um caderno de campo para registrar práticas sustentáveis e informações relacionadas à origem da produção.
“A ideia é que o produtor tenha conhecimento técnico para manejar as abelhas e também instrumentos para registrar e acompanhar as práticas adotadas na propriedade”, explica Elaine Basso (GeoApis).
O projeto busca associar conservação da biodiversidade, valorização da produção e novas oportunidades para as famílias rurais. A meliponicultura, porém, ainda é vista principalmente como atividade complementar, com ganhos relacionados ao autoconsumo, à produção artesanal, à gastronomia e ao turismo.
A economia por trás da origem
A Indicação de Procedência Erva-Mate Região de Machadinho acrescenta outro elemento à estratégia de valorização do território. Reconhecida pelo INPI em fevereiro de 2025, a IG abrange dez municípios e estabelece regras para produtores que atendem ao Caderno de Especificações Técnicas.
Para o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as Indicações Geográficas podem contribuir para organizar cadeias produtivas, fortalecer a identidade dos territórios, criar oportunidades ligadas ao turismo e acessar mercados específicos.
“A Indicação Geográfica é um tema em bastante ascensão no território nacional. O brasileiro está entendendo cada vez mais as possibilidades de se trabalhar com esse tema e desenvolvendo os territórios, promovendo conexões com outros setores, como o turismo”, afirma André Bordignon, especialista em agronegócios do Sebrae/RS.
Segundo Bordignon, a Indicação de Procedência da Região de Machadinho também contribui para estruturar a cadeia produtiva local. “Ela veio de uma certa forma para organizar melhor essa região e todo o seu sistema produtivo. Estruturou-se uma governança para estabelecer processos produtivos e cada vez mais acessar mercados específicos, buscando inclusive desenvolver novos produtos na região”, explica.
André destaca ainda que os efeitos da IG vão além da agregação de valor. “É uma ferramenta de proteger os fatores naturais e os fatores humanos que estão atrelados àqueles produtos que levam o nome da região”, afirma. Para ele, a IG também estabelece conexões com o mercado ao valorizar a produção local, as histórias associadas aos produtos e a rastreabilidade da origem.
“A Indicação Geográfica vem ganhando um destaque nacional e buscando, nos territórios, aqueles produtos que realmente têm reconhecimento e notoriedade por fatores, tanto naturais quanto humanos, atrelados no seu sistema produtivo”, diz.
No caso da erva-mate de Machadinho, a origem é associada às características do território, aos métodos de produção e à tradição regional. A proposta é transformar esses elementos em atributos reconhecidos pelo mercado, sem dissociá-los da realidade das propriedades familiares.
A presidente da Apromate, Angela Claudete da Fonseca, acompanha esse processo de organização da cadeia. A associação trabalha para ampliar a participação dos produtores e consolidar as práticas necessárias à valorização da erva-mate regional. “A Indicação Geográfica ajuda o produtor a entender que a origem e a forma de produzir também fazem parte do valor da erva-mate”, afirma Angela.
A meliponicultura entra nesse contexto como uma atividade complementar. Embora o mel ainda não represente uma fonte expressiva de renda para a maioria das famílias, a presença das abelhas agrega uma dimensão ambiental ao sistema produtivo e pode gerar produtos destinados ao consumo próprio e a nichos específicos.
Renda diversificada, riscos compartilhados
A diversificação, entretanto, não elimina os riscos da atividade rural. O clima é um dos principais fatores que interferem tanto na produção de erva-mate quanto na apicultura e na meliponicultura.
Períodos prolongados de chuva, baixa luminosidade e excesso de umidade podem reduzir a atividade das plantas e limitar o voo das abelhas. Em momentos de chuva intensa, os insetos permanecem mais tempo dentro das colmeias e consomem as reservas de mel que seriam destinadas à colheita.
“Quando chove por muitos dias, a abelha não consegue sair para buscar alimento. Ela consome o que está armazenado e, se o período ruim se prolonga, a produção de mel cai”, explica Ilvandro de Melo (Emater-ES).
Nas áreas de erva-mate, os sistemas agroflorestais também podem ajudar na conservação do solo diante de eventos de chuva intensa, mantendo cobertura vegetal e reduzindo os efeitos da erosão.
A experiência de Machadinho mostra que a diversificação da agricultura familiar pode acontecer sem substituir a erva-mate, mas combinando produção, conservação e novas possibilidades dentro da mesma propriedade. A erva-mate permanece como eixo econômico, enquanto as abelhas, as árvores nativas e os sistemas agroflorestais ajudam a compor um modelo em que renda, biodiversidade e valorização do território dividem o mesmo espaço — uma lógica que também reforça a identidade regional que a Indicação Geográfica busca proteger e levar ao mercado.
Fonte: Conexão Safra
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