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O município de Maximiliano de Almeida é conhecido nacionalmente por ancorar uma das maiores hidrelétricas do país, a Usina de Machadinho, porém, o que poucos sabem é que as terras e águas maximilianenses já servem para geração de energia há muito mais tempo. Levando-se em conta as dificuldades da época em que foi construída, a usina do Rio Forquilha pode ser considerada uma obra tão ou mais grandiosa do que a própria Usina Machadinho.
Auxiliando na produção de um resumo dessa história, o Senhor Domingos Pelicer, hoje com 79 anos de idade, participa como testemunha viva, relatando alguns fatos que dão a dimensão da ousadia dos idealizadores da obra. Também contribui com informações o seu filho Olmir, que além de produtor rural na Linha Usina também é operador da hidrelétrica.
A geografia do local onde foi construída a usina é fator determinante para que a obra fosse realizada. Fazendo uma volta, o Rio Apuaê, conhecido popularmente como Rio Forquilha, faz seu curso partindo da barragem de contenção ao longo de aproximadamente seis quilômetros, retornando ao local onde foi implantada a casa de força. O canal de ligação entre a barragem e a casa de força perfaz uma distância de aproximadamente 400 metros.
Antes da construção da usina, já funcionava outro empreendimento que se utilizava da força e da engenhosidade da natureza. Uma olaria aproveitava as condições naturais para produzir tijolos a partir da força da água. “A olaria era tocada por uma roda d’água. Vinha um canal de água lá de cima e tocava a olaria”, conta Domingos.
Os proprietários da olaria, juntamente com o então Padre de Paim Filho, João Crisóstomo, começaram a alimentar a ideia de que seria possível construir uma usina utilizando-se dos recursos naturais presentes no local. O Padre João buscava também viabilizar a produção de tijolos em maior escala, que seriam utilizados posteriormente na construção da Igreja Matriz da cidade de Paim Filho. “Ele (Padre) como um administrador, para fazer essa igreja de Paim, buscou uma fonte de energia para que se tocasse essa olaria”, conta Olmir Pelicer.
A inauguração da usina aconteceu em 1950, porém os moradores da localidade só receberam a luz elétrica em suas residências no ano de 1975. “O pessoal da redondeza aqui não tinha energia. A energia chegou para nós em 1975. Se tinha uma usina que gerava energia ligada em uma linha que vinha de Erechim e depois era distribuída nos ramais” conta Olmir.
Tal situação vivida pelos moradores da localidade não se repetia com a olaria, instalada junto a usina. O projeto previu um gerador que captava energia para a fabricação de tijolos. “A usina produzia a energia; ia para a linha de transmissão e tinha um gerador que baixava uma tensão que era consumida na olaria. Então todas aquelas moradias que existiam ao redor da usina tinham energia”, relata Olmir.
Em relação à construção da usina, Seu Domingos traz relatos interessantes e espantosos para as gerações mais jovens. Uma dessas situações é a referência à construção do valo adutor da água até a casa de força. “Os meus irmãos chegavam a trabalhar dias e dias com picareta e carrinho de mão. ‘Cavocaram’; fizeram o valo tudo a mão e levavam a terra dentro do rio. Não tinha máquina nenhuma”, relata Domingos. Uma das fotos que ilustram esta matéria mostra o tamanho do valo construído apenas com ferramentas simples e com a força braçal dos trabalhadores que tornaram a obra possível.
A areia e as pedras utilizadas na construção também foram retiradas da própria região da usina. “É tudo construído com pedras tiradas a braço do entorno da barragem. E a areia é tudo de rio. Pelo que se sabe, tinham dois locais que tiravam areia de regiões próximos”, relata Olmir. Esses materiais eram transportados com carroças de boi ou no máximo, “com caminhões velhos”. “Eram transportadas com carroça e depois começaram a puxar com um caminhão velho”, conta Domingos.
O que mais impressiona na obra, de acordo com Olmir, é o fato de que toda a barragem, os pilares e a estrutura dos canais de adução são construídos com pedras. “Os pilares são de pedra e a estrutura da casa é de tijolo maciço com parede dupla. O que impressiona é realmente toda a parte da barragem, da comporta, da câmara de carga terem sido feitas todas de pedra”, comenta Olmir.
A barragem propriamente dita tem altura de quatro metros e serve para elevar o nível da água do rio e direciona-la para a casa de força. “O muro em si da barragem dá quatro metros”, relata Olmir.
Em relação à quantidade de energia gerada pela usina, Olmir comenta que não tem dados precisos, porém imagina que seja suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Maximiliano de Almeida. Quando se media a energia consumida em cada município, cerca de vinte anos atrás, essa energia era suficiente para abastecer aproximadamente três municípios pequenos da região, porém o aumento da demanda reduziu essa proporção entre energia gerada e consumida.
De acordo com Domingos, na época em que começou a se falar em construir a usina, parte dos moradores da região duvidavam que isso fosse acontecer. “Alguns achavam que não era possível e perguntavam o que iam fazer ali, no meio do mato. E limparam fora (o mato), fizeram o valo a picareta e saiu mesmo a usina”, conta.
Falando sobre o impacto que a obra gerou para a comunidade na época em que foi construída, Olmir avalia da seguinte forma: “sair uma obra de engenharia de engenharia em uma comunidade é algo que dá um impacto e eleva o nome da comunidade e da região por ser uma fonte de energia”.
Hoje o que fica mais forte no sentimento de Olmir é a satisfação em poder trabalhar em sua própria comunidade e em um empreendimento que trouxe destaque para o local. “Me sinto orgulhoso e privilegiado em poder estar trabalhando onde me criei e tenho minhas raízes. Por sorte do destino e um pouco de preparação, de estudo e de aperfeiçoamento, estou até hoje trabalhando em uma empresa que está instalada na nossa comunidade e gerando energia. Fico feliz por fazer parte disso e espero que continue por muito tempo assim”, conclui.
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